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| Camarada José Bastos |
A sensação que me dá é que o Ministro da economia acredita
que tudo se resolve com um grande aperto do cinto. O homem está completamente
enganado o mundo mudou e nada será como antes.
Existem dois grandes problemas no país que são de muito
difícil solução, mas que têm que ser resolvidos custe o que custar, porque as
pessoas não podem viver sem emprego e sem habitação e são centenas de milhares
de pessoas que vão estar nesta situação em 2012.
As instituições de solidariedade social e os bancos
alimentares, hoje tão falados, são importantes, quando apoiados pelo Estado,
mas não chegam para acudir a uma legião de desempregados, sem subsídio de
desemprego e sem casa. E as mulheres divorciadas e as mães solteiras com filhos
a cargo, como vão sobreviver mesmo que trabalhem e ganhem 485 euros, se tiverem
que pagar uma habitação? E os jovens que estão desesperados e sem esperança de
conseguir o primeiro emprego?
Nasci e vivi num bairro pobre de pescadores em 1938 e lá vivi
e convivi até aos 24 anos. Quando falo de pobreza sei do que estou falar. Nos anos
quarenta do século passado as crianças da minha geração andavam quase todas
descalças, os rapazes iam para o mar com os pais ainda não tinham dez anos, os velhos
ou eram ajudados pelos filhos ou morriam à mingua porque não tinham reformas,
as habitações eram muito pequenas, húmidas, sem casas de banho e chão em terra,
os esgotos corriam a céu aberto nas ruas, não havia água canalizada e havia uma
grande quantidade de pessoas às portas a pedir esmolas. As mercearias e as
padarias forneciam fiado e muita coisa que vai hoje para o lixo tinha valor de
penhor.
As fábricas de cortiça que existiam no Montijo à época só
vendiam para exportação e quando não havia encomendas, os operários eram
despedidos ou ficavam a trabalhar e a ganhar três dias por semana. A Mundet e o
Pablos tiveram muitas vezes a três dias.
As pessoas conformavam-se e consumiam muito pouco e muitas
vezes fiado na mercearia e no padeiro para pagarem quando recebessem algum
dinheiro. Era uma vida de miséria.
A vida foi melhorando nos anos sessenta com ida de muitos
milhares de emigrantes para a Europa e a partir da revolução de Abril de 1974,
foi estabelecido um salário mínimo e emprego com direitos, muitas pessoas
passaram a frequentar as escolas secundárias e as universidades e a mentalidade
das pessoas evoluiu muito. Foi criado o SNS e todos os portugueses passaram a
ter uma reforma.
Aderimos à União Europeia nos anos oitenta do século passado
e com essa entrada beneficiámos de elevados investimentos para construção de
infra-estruturas. Mais tarde aderimos ao euro e com isso conseguimos
empréstimos a juros baixos para construção de habitações de muita boa
qualidade.
Com toda esta evolução, apareceu uma classe média forte, que
hoje está a ser destruída, com perda de emprego, sem subsídio e em consequência
sem possibilidade de pagar a prestação da casa, sem automóvel, sem conseguir
emprego para os filhos, apesar dos sacrifícios que fizeram para eles estudarem
e muitos já não conseguem alimentação e têm que recorrer ao banco alimentar.
Esta legião de desempregados da classe média não vai estar disposta a passar de “cavalo” para “burro” de um
momento para o outro, sem terem culpa nenhuma.A classe média desempregada e já sem receber subsídio de desemprego e os filhos também à procura de emprego sem o encontrar não vai suportar tudo isto sem se revoltarem. As pessoas evoluíram muito, estão bem informadas e não vão aceitar a injustiça de que estão a ser vítimas.
Faz algum sentido existir milhares de habitações novas e usadas fechadas, sem qualquer utilidade e milhares de pessoas sem casa a irem morar com familiares e outros para rua? Tem que haver aqui um “golpe de asa” político para resolver este problema de fundo.
Já pensaram nas pessoas trabalhadoras que sempre fizeram uma vida honesta e que agora não têm nada nem para eles nem para os filhos? E os filhos mesmo que queiram ir trabalhar para as obras. Já não existem obras.
Somos um país pequeno na Europa, mas temos que nos juntar, em
termos políticos, a outros países pequenos como nós e forçarmos os Alemães e os
Franceses a mudarem de políticas. A crise não depende só de nós como nos
tentaram fazer crer por motivos partidários.
A crise é para ser resolvida por políticos e não por
economistas. É bom que os outros políticos, ouçam o Dr. Mário Soares, que tem
uma grande experiência política e sabe muito da política europeia.Camarada José Bastos (Montijo)
