26 de janeiro de 2011

OS SES QUE NOS CALARAM - RESULTADO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS 2011


Enfoque nos resultados de Manuel Alegre no distrito de Setúbal

I

A – REGIÕES AUTÓNOMAS
Açores - Abstenção 68,88%; M. Alegre - 25.13%;
Madeira - Abstenção 52.08%; M. Alegre 7,68%;
Estrangeiro – Abstenção 94.72%; Manuel Alegre 20.21%

B – PORTUGAL CONTINENTAL
Aveiro 17.55%; Beja 25,40%; Braga 19,24%; Bragança 19.88%; Castelo Branco 22.64%; Coimbra 23.20%; Évora 24.85%; Faro 18.52%; Guarda 19.00%; Leiria 14.58%; Lisboa 21.80%; Portalegre 26.42; Porto 20.02%; Santarém 19.42%; Setúbal 23.48%; Viana do Castelo 13.17%; Vila Real 18.09%; Viseu 15.71%;

C – ORDENAMENTO POR DISTRITO MAIS VOTADO
1º Portalegre 26.42; 2º Beja 25,40%; 3º Açores 25.13%; 4º Évora 24.85%; 5º Setúbal 23.48%; 6º Coimbra 23.20%; 7º Castelo Branco 22.64%; 8º Lisboa 21.80%; 9º Porto 20.02%;
10º Bragança 19.88%; 11º Santarém 19.42%; 12º Braga 19,24%; 13º Guarda 19.00%;14º Faro 18.52%;15º Vila Real 18.09%; 16º Santarém 19.42%; 17º Aveiro 17.55%; 16º Viseu 15.71%;
18º Leiria 14.58%;19º Viana do Castelo 13.17%;20º Madeira.

O distrito de Setúbal ficou em 4º lugar a nível do Continente, com 23.48%;

A mais alta votação de Manuel Alegre, no distrito, foi em Alcácer do Sal, onde obteve 27.96%, seguida de Grândola com 26.54% e Sines com 26.46%.

A mais baixa votação obtida por Manuel Alegre foi em Alcochete, onde registou 21.53%.

II

A - INTERPRETAÇÃO DOS DADOS – PANORAMA GERAL

1 - A capital do reino do CAVAQUISTÂO é agora em Vila Real, que deu 65.49% de votos a Cavaco Silva. Mas é em Alvaiázere, concelho de Leiria, que esta facção atinge o mais elevado resultado, com 80,76%, num distrito em que a abstenção atingiu 56.38%.
De resto, é em Alvaiázere, no concelho de Leiria 80,76%; nos distritos de Bragança 65.11%; Viseu 64.97% e Aveiro 60.69%, que são arrecadados os mais elevados resultados desta tendência de direita.

2 – Voltando ao distrito de Setúbal, se tivesse havido uma união da tendência socialista, os resultados poderiam ter rondado os 41.77%. Mas se a esquerda se tivesse unido, tal como fez a direita, o resultado poderia ter sido de 59.91%, contra os 36.57% da direita, percentagem que Cavaco Silva alcançou no distrito de Setúbal.

Em conclusão, poderá perguntar-se se Setúbal é ainda um distrito de esquerda. Os dados respondem por si: o distrito de Setúbal é um distrito dividido, onde se reflecte a ambiguidade dos resultados, independentemente do que isso queira traduzir: ajuste de contas entre Soares e Alegre, dirão uns; resultado da cidadania favorável a Nobre, dirão outros, sem aprofundarmos, exactamente, o que se entende por verdadeira independência, num quadro em que, fora de qualquer máquina partidária ou outra qualquer estrutura organizativa, o exercício da cidadania dificilmente consegue impor-se.

Perante um panorama de abstenção nacional, que atingiu os 53.37%, pergunta-se como pode considerar-se um Presidente de todos os Portugueses um candidato que obtém 52.9% dos votos (2.230.104). Ou seja, resta um universo de votantes de 46.63%, dos quais Cavaco Silva arrecada apenas 24.66%; Alegre 9.20%; Fernando Nobre 6.6%, Francisco Lopes 3,3%; José Manuel Coelho 2,00% e Defensor Moura 0.73%, isto sem considerarmos os votos nulos e brancos.

Em boa verdade, os 19.75% (831.969 – Manuel Alegre); os 14.19% (593.868 Fernando Nobre); os 7.14% (300.840 Francisco Lopes); os 4,5% (189.340 Manuel Coelho); e os 1.57% (66.091 Defensor Moura) também não traduzem uma vontade real de todos os cidadãos com capacidade eleitoral. Esses, de uma forma ou de outra, estão cobertos pelo anonimato da grande vencedora destas eleições, a ABSTENÇÃO com 53.37%.

Outra das vitórias registadas (na Região Autónoma da Madeira) foi a da CARICATURA, de José Manuel Coelho, que capitalizou 4.50% (189.340 votos).

Não sei se estes resultados traduzem a vitória da raiva, da indiferença ou da sabedoria do Povo português. Mas algumas semelhanças entre a actual situação e o quadro descrito por Eça de Queiroz, nas suas Prosas Esquecidas III, relativamente à política de 1867, são deveras coincidentes:
  • “Sempre que no parlamento se levanta a voz plangente dum ministro, pedindo que cresça a bolsa do fisco e se cubra de impostos a fazenda do pobre, para salvação económica da pátria, há agitações, receios, temores, inquietações, oposições terríveis, descontentamentos incuráveis. O povo vê passar tudo, indiferente, e atende ao movimento da nossa política, da nossa economia, da nossa instrução, com a mesma sonolenta indiferença e estéril desleixo com que atenderia à história que lhe contassem das guerras exterminadoras duma antiga república perdida".
  • Mas quando o imposto começa a aparecer vagamente entre as profundidades do deficit, o povo exalta-se, reclama, pede, exige, e às vezes deixa a sua cólera varrer os partidos e dispersar os corrilhos.
A oposição tem bradado com irada energia contra o governo, pelo deficit, pelos tributos, elos desperdícios, pelo pouco amor das economias. Nós estamos prostrados, como sacerdotes mudos de respeito e de temor diante da sagrada majestade dos ídolos governamentais. Mas conhecemos que a oposição, às vezes, para dar um golpe na cabeça dum ministro, atravessa cruelmente o peito da justiça.

Temos um deficit de 5.000 contos. Esta á a negra, a terrível, a assustadora verdade. Quem o promoveu? Quem o criou? De que desperdícios incalculáveis se formou? Como cresceu? Quem o alarga? É o governo? Foram estes homens que combatem, foram aqueles que defendem, foram aqueles que estão mudos? Não. Não foi ninguém. Foram as necessidades, as incúrias consecutivas, os maus métodos consolidados, a péssima administração de todos, o desperdício de todos. Depois, as necessidades da vida moderna, de terrível dispêndio para as nações. Como na vida particular cresceram as superfluidades, o vão luxo, o aparato consumidor, mais precisões, mais gastos, a vida internacional tornou-se tão cara que mais ou menos todas as nações estão esfomeadas e magras. (…) O deficit tornou-se um vício nacional, profundamente arreigado, indissoluvelmente preso ao solo, como uma lepra incurável. (…) Em Portugal, as oposições esquecem-se facilmente do poço onde dorme a verdade; e se por acaso o procuram é para o encherem de veneno até às bordas. (…) Lançar impostos, vagamente, sem sistema, sem crítica esclarecida, sem justos e longos estudos do país, da sua riqueza, do seu trabalho, é arruinar, despedaçar, dilacerar a pobre pátria…. Eça de Queiroz.”
B - MAPA COMPARADO – EXERCÍCIO ESPECULATIVO - RESULTADO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS 2011 - Distrito de Setúbal *

Concelho

Candidato Hipótese de união de Tendência Socialista Remota hipótese de União de toda a esquerda

DIREITA UNIDA

*José Manuel Coelho não figura no mapa. Por ser difícil enquadrá-lo nesta linha especulativa.

Para quê continuarmos a procurar razões fora de nós? Só a forma de as manifestarmos varia com o tempo e com as tecnologias. O sentimento, esse, mantém-se intacto através dos tempos.

Maria Amélia Clemente Campos,
(Especialista em coisa nenhuma).


 
Caras e caros apoiantes de Manuel Alegre,
Este é o último e-mail que vos envio. Findo o acto eleitoral, impõe-se uma palavra de reconhecimento para com os que ajudaram a cumprir mais um dever cívico.
Pela minha parte, fiz o melhor que sabia. Procurei ser isenta, justa e empenhada. E apenas tentei responder aos sinais que me pareceram poder concorrer para um melhor resultado eleitoral de Manuel Alegre no distrito de Setúbal.
Remeto-vos, em anexo, o meu olhar sobre os acontecimentos e a minha leitura dos dados. Estes são inteiramente da minha responsabilidade e apenas pretendem ajudar-nos a reflectir.
Cordialmente,
Maria Amélia Campos